‘Só Deus me tira do cargo’, diz Bolsonaro. Lira e Aras agradecem o elogio – 18/07/2021

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Ao deixar o hospital na manhã deste domingo (18), após tratar de uma obstrução intestinal, o presidente Jair Bolsonaro repetiu que só a intervenção divina o removeria do cargo. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) e o procurador-geral da República, Augusto Aras, devem ter ficado lisonjeados com o elogio.

“Querem derrubar o governo? Já disse, só Deus me tira daquela cadeira. Será que não entenderam que só Deus me tira daquela cadeira”, afirmou.

Fosse o presidente um democrata, a declaração seria vista apenas como uma reafirmação de sua saúde. Mas como não é o caso, fica sempre a impressão de que ele não quer entregar o cargo mesmo em caso de derrota em 2022.

A questão é que o milagre que mantém Bolsonaro no cargo, mesmo acusado de mais de duas dezenas de crimes de responsabilidade e com 126 pedidos de impeachment, não é operado nem pelo Pai, nem pelo Filho, muito menos pelo Espírito Santo. Mas por Arthur Lira e Augusto Aras.

O presidente da Câmara mantém o impeachment em banho maria, sem engavetar, nem dar prosseguimento a nenhum dos pedidos. Dessa forma, mantém Bolsonaro sob rédea curta, atendendo às necessidades do centrão.

Diz que falta “materialidade” aos crimes de responsabilidade e que um processo não teria apoio na casa. Afinal, por que uma boa parte do Congresso Nacional iria querer sacrificar Jair se, quanto mais vulnerável, mais Jair entrega?

Ao mesmo tempo, Augusto Aras, desejoso de uma indicação a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, tem colocado a Procuradoria-Geral da República como escudeira dos interesses pessoais do presidente da República. Há elementos para que uma denúncia fosse feita ao STF por crimes cometidos por Bolsonaro antes e durante a pandemia, o que faria com que a Câmara se pronunciasse.

Diante de uma PGR que agiu como espectadora das ações do Poder Executivo, omitindo-se de suas funções constitucionais, a ministra Rosa Weber teve que constranger publicamente o órgão a abrir um inquérito para investigar se Bolsonaro prevaricou não ignorar informações sobre corrupção na compra da Covaxin.

Sentindo-se livre, leve e solto, Bolsonaro segue atacando as instituições. Não à toa, ao deixar o hospital, aproveitou para bombardear novamente nosso sistema eleitoral. Falou novamente em fraudes e disse que querem impedir que o voto seja auditável, uma dupla mentira: não apresenta uma mísera prova sequer e o sistema eletrônico de votação já é auditável.

Da mesma forma que usou doença para faturar politicamente, ele utiliza a saída do hospital para, mais uma vez, atiçar seus seguidores mais fiéis e preparar terreno para uma possível derrota nas eleições do ano que vem, além de jogar uma cortina de fumaça sobre as más notícias, como as denúncias de corrupção envolvendo seu governo e sua família.

Chega a dar dó de quem acreditou que ele se acalmaria após a conversa com o presidente do STF. Após uma semana em que ameaçou um golpe eleitoral, usou expressões chulas para se referir às investigações da CPI da Covid, xingou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, incentivou a intimidação do Senado pelas Forças Armadas, Jair ganhou um cafezinho de Luiz Fux e uma nova tentativa de reconciliação. O papel do ministro seria cuidar da Constituição, não passar pano para um presidente.

Após testar limites, Bolsonaro sempre puxa o freio, apaziguando membros de outros poderes e gerando análises do tipo “ele foi contido” em uma parte da opinião pública. Em questão de dias, volta a fazer tudo novamente. Neste caso, voltou à cargo através de postagens enquanto internado e completa do serviço com a coletiva após deixar o hospital.

E para que não haja dúvidas, ele ainda aproveitou para defender remédios que até o próprio Ministério da Saúde já considerou ineficazes para o tratamento da covid.

“O que me surpreende é de ver o mundo, alguns países investindo em remédio para curar a covid, e aqui, quando você fala de cura para covid, parece que você é criminoso. Não pode falar em cloroquina, ivermectina”, disse.

Poder, pode. Mas não funciona e só faz mal à população. Tal como a guerra política que ele trava diariamente, em uma cama de hospital, na cadeira no Palácio do Planalto ou em pré-campanha eleitoral em algum lugar do Brasil.



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