Palestina narra assassinato de garota em livro que imita as fraturas de seu país – 19/07/2021 – Ilustrada


Em 1949, durante uma patrulha no deserto do Neguev, soldados israelenses capturaram uma garota beduína. Cortaram seu cabelo, a estupraram, mataram e enterraram seu corpo debaixo da areia.

Essa atrocidade —uma entre as tantas cometidas naqueles anos— serve de alicerce para o romance “Detalhe Menor”, publicado pela palestina Adania Shibli há cinco anos. O livro, que concorreu ao International Booker Prize deste ano, sai agora pela Todavia. A tradução é de Safa Jubran, professora da Universidade de São Paulo responsável por verter boa parte da literatura árabe para o português.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, Shibli narra os pormenores da captura e morte da jovem beduína. Na segunda, ela descreve os esforços de uma mulher palestina que, décadas depois, decide viajar para o Neguev em busca de mais informações sobre aquele antigo episódio.

A princípio, o trabalho de Shibli parece ser o de uma historiadora, ao recuperar os detalhes de um evento praticamente esquecido. O enfoque dela num episódio particular lembra o gênero da micro-história, que se detém nos pormenores, em detrimento dos grandes eventos e personagens.

Mas ela é enfática, quando conversa com o repórter da cidade de Ramallah, onde vive. “Não me importa que esse romance seja baseado em um evento real. Isso é irrelevante para a literatura.”

Shibli diz que não está interessada no gênero da história. Seu trabalho é com a etapa anterior, afirma, com a poesia que precede a historiografia. Diz ter fascinação, em especial, pelas margens do mundo, “pelo que não é visível, que não é barulhento, que não é articulado”.

As vértebras de “Detalhe Menor” não são os detalhes factuais da morte da beduína —e sim uma investigação sobre a arte narrativa. “Esse romance é a culminação de anos de questionamento sobre que tipo de romance pode ser escrito nas condições em que vivemos na Palestina”, ela diz.

Shibli não destrincha as circunstâncias, mas são bem entendidas. A ocupação israelense da Cisjordânia desde 1967, por exemplo. A fratura dos territórios palestinos, separados entre si por assentamentos e postos de controle militar. A violência diária pela qual gente como Shibli vive.

“Essa situação cria uma linguagem específica, uma forma narrativa específica”, diz. Quando o repórter pede que explique essa ideia, Shibli conjura uma metáfora. Afirma que o romance clássico, tradicional, é um homem de terno. “Seus movimentos são claros, há pontos de inflexão, uma transição e um fim”, diz.

Ela lembra os estudos seminais de Benedict Anderson e atrela o romance moderno ao capitalismo, à imprensa e aos movimentos nacionalistas do século 19.

A escritora dispara, na sequência, uma série de perguntas. “Quando você resiste ao nacionalismo na forma do sionismo, quando você resiste à nação na forma do Estado de Israel, quando você resiste ao neoliberalismo e às suas injustiças, qual é o tipo de estrutura narrativa que você cria?”

Seu romance “Detalhe Menor” é uma resposta a essas perguntas. Não é um homem de terno. É uma história fragmentada. É também um texto excessivamente detalhado, como se o narrador não soubesse hierarquizar as coisas, como se não pudesse contar ao leitor o que realmente importa. Num trecho, por exemplo, Shibli descreve como as beiradas do sabonete se arredondam com o uso.

É, ademais, um texto de linguagem por vezes atropelada. A segunda parte do romance, por exemplo, é narrada por uma mulher medrosa, confusa, desorganizada, gaga —ou seja, não veste um terno.

Shibli explica que quis que aquela personagem gaguejasse para explorar uma ideia que há tempos a fascina como escritora –que uma pessoa com disfemia seja um dia capaz de falar como o homem de terno. Ou seja, mesmo o subjugado pode, se tentar, imitar quem o subjuga.

“Quando você imita quem ocupa as posições de poder, quem você se torna?”, ela pergunta. É um exercício perigoso. “Palestinos têm uma fascinação pelo discurso israelense. O colonizador faz você acreditar que você vale menos do que ele”, afirma.

Foi o caso, diz, dos argelinos em relação aos franceses e dos indianos em relação aos britânicos. É um fenômeno que interessa pesquisadores dos estudos subalternos, como o indiano Homi Bhabha, que escreveu sobre isso.

Neste momento, o repóter explica a Shibli que, no Brasil, falamos em “complexo de vira-lata”. Ela ri. Em ambas as partes de “Detalhe Menor”, a presença de cachorros de rua incomoda os narradores dela.

“Me pergunto o que aconteceria conosco se deixássemos que os cães nos guiassem, em vez dos políticos”, provoca. Por uma coincidência literária, um cachorro começa a latir alto em Ramallah, perto da janela dela. “Veja só, o romance está se escrevendo aqui, agora.”



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