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GenCyber treina crianças para se tornarem “guerreiros cibernéticos”

A Universidade de Washington, que também oferece acampamentos de férias em inglês, é uma das dezenas de universidades que administraram as acampamentos de verão da GenCyber este ano, em 44 dos 50 estados dos EUA e em Washington, capital federal, além de Porto Rico, de acordo com o site do programa. 

O acampamento de férias também é ministrado na Universidade de Washington

De 2015 a 2019, 15.545 alunos participaram de 565 acampamentos de férias GenCyber, além de 3.711 professores, que passaram pelo programa de formação de educadores. O relatório que avalia os primeiros cinco anos estima que quase 19% dos ex-alunos que se formaram no ensino médio seguiram em busca da segurança cibernética como carreira; vários ex-alunos foram trabalhar para as Forças Armadas, agências de inteligência ou empresas privadas de defesa como a Northrop Grumman. Muitas das universidades referem-se a esses acampamentos como “academias de guerreiros” destinadas a treinar futuros “guerreiros cibernéticos”. “A Academia de Ciberguerreiros treina a próxima geração para o emprego em combate virtual”, diz um artigo no site da Universidade da Geórgia do Norte, sobre o curso de 2017. 

Os alunos aprendem fundamentos da segurança cibernética e, pelo menos em alguns acampamentos, maneiras simples de hackear computadores. Em alguns programas, os alunos são colocados em pares com mentores em idade universitária matriculados no treinamento de oficial militar. 

Matt, outro ex-aluno entrevistado para o relatório, disse que participou de um exercício de hackeamento “muito divertido”: “Roubamos as credenciais do administrador usando o DDoS [ataque massivo de visitas contra um servidor]. Não pensávamos que era algo dentro dos limites do que poderíamos realmente fazer, mas conseguimos”, disse Matt, que se formou em ciência da computação e segurança cibernética. “Conseguimos fazer isso em uma rede privada, então não era ilegal”, explica.

Para participar do programa, os docentes universitários devem apresentar propostas à NSA, que oferece entre US$ 50 mil e US$ 175 mil em financiamento para cada acampamento de férias de três semanas. Muitas universidades realizam várias edições a cada verão. 

Além da NSA, o acampamento de férias em português na Universidade de Washington recebe também financiamento da National Science Foundation (NSF – Fundação Nacional de Ciência), uma agência do governo dos Estados Unidos, e apoio adicional interno do Departamento de Língua Portuguesa e Espanhola do Center for Global Studies, do Language Learning Center e do Center for Information Assurance and Cybersecurity, um “centro de excelência acadêmica” certificado pela NSA. A NSF forneceu à universidade mais de US$ 110 milhões em financiamento durante o último ano fiscal, financiando mais de 189 bolsas em várias áreas de estudo.

Descrição do curso no site: “O Programa de Cibersegurança em Português da UW é uma oportunidade para estudantes do ensino médio nos Estados Unidos se familiarizarem com os princípios da Cibersegurança”

Barbara Endicott-Popovsky, diretora da escola de segurança cibernética da Universidade de Washington, afirmou ao site Cybersecurity Guide que, como parte da certificação da NSA que sua escola detém, ela participa de “vários comitês nacionais” e trabalha para promover os interesses da NSA em outras universidades: “Fui designada pela NSA para supervisionar sete estados, o que me permite fornecer mentorias introdutórias para universidades e faculdades que desejam desenvolver programas de segurança cibernética alinhados com a direção nacional”. A escola tem parceria também com empresas que detêm enormes contratos com as agências de inteligência dos EUA, como Booz Allen (onde trabalhava o ex-terceirizado da NSA Edward Snowden), Boeing, IBM e Microsoft, entre outras. A universidade é a 43ª mais militarizada do país, de acordo com uma investigação publicada em 2015 pela Vice.

O Departamento de Defesa “enfrenta desafios substanciais para atender às necessidades da força de trabalho altamente qualificada do guerreiro cibernético”, observa um estudo de 2015 da Rand Corporation, um think tank sem fins lucrativos que atende ao complexo militar-industrial dos EUA. “Treinar indivíduos a partir de um nível de habilidade zero é caro e muitas vezes ineficiente, portanto, construir um forte fluxo de candidatos pode ser benéfico”, conclui o estudo, que sugere que é mais econômico recrutar falantes nativos do que treinar novos contratados em recursos de guerra cibernética e de linguagem, já que muitos deles não seguem no serviço governamental por muitos anos.

“Não é um plano secreto do governo. Não é isso”, diz professor

Eduardo Viana da Silva, professor de português da Universidade de Washington e líder do programa GenCyber em português disse à Pública em entrevista que, embora o financiamento e as diretrizes curriculares venham da NSA e da NSF, os cursos são elaborados e ministrados por ele e outros professores de português interessados em encontrar novas formas de engajar os jovens. 

“Línguas estrangeiras é um desses campos em que você está sempre lutando para conseguir alunos”, disse ele. “Incorporar algo como segurança cibernética ajuda, do ponto de vista prático, a atrair alunos.”

Segundo Viana da Silva, “grande parte do programa” é “dar uma janela para alguns caminhos profissionais que os alunos podem explorar no futuro” na área de segurança cibernética – dentro e fora do governo. “Existem dezenas de milhares de empregos, e eles simplesmente não têm pessoas qualificadas” com competências linguísticas suficientes. “Portanto, achamos que estamos preenchendo uma lacuna de algumas formas, especialmente em português”, afirma o professor.

“Não é um plano secreto do governo. Não é isso”, diz. “Não estamos ensinando como quebrar códigos. Porque não sabemos. Sou professor de línguas, não sei quebrar códigos.”

Procurada, a NSA não respondeu a todas as perguntas da Pública, mas disse que “o programa GenCyber visa abordar o déficit de profissionais qualificados em segurança cibernética do país. Ao despertar um interesse precoce em segurança cibernética em alunos [do ensino fundamental e médio], o programa GenCyber oferece uma oportunidade para os alunos de todo o país se tornarem a próxima geração de profissionais cibernéticos”. 

Para aumentar a acessibilidade, os cursos foram ministrados também para “alunos com autismo e alunos com deficiência visual e surdos”, de acordo com o porta-voz.

O português é “fundamental para a segurança nacional dos EUA”

A Universidade de Washington já havia recebido financiamento da NSA em 2017 para administrar acampamentos de férias de verão em português para adolescentes como parte de outra iniciativa chamada “Startalk”, projetada para aumentar as habilidades em línguas críticas entre os futuros militares e a força de trabalho de inteligência. A página do curso mostra um vídeo com jovens brasileiros e outras referências nacionais como a bandeira e o nome de Santos Dumont.

Em vídeo publicado na página de inscrição do site o futuro candidato é apresentado ao conceito do curso

O português é um dos 65 “idiomas preferidos” considerados “essenciais para a segurança nacional dos EUA” pelo Departamento de Defesa.

Em um trecho do vídeo é mostrada uma aula de capoeira que é parte das oficinas do curso

Um estudo acadêmico de 2018 afirma que “nos Estados Unidos o português vive seus anos dourados desde a última década”. O crescimento é resultado direto da classificação do português como “língua crítica” pelo Departamento de Defesa. Os autores argumentam que essa designação é um “sujeito político em um contexto político”. 

Eles escrevem, citando bolsas anteriores, que o “boom do ensino da língua portuguesa está diretamente relacionado aos países da África, Macau e Brasil, já que essas economias e seus recursos e commodities de biodiesel reconfiguram as moedas e fornecem aos alunos a oportunidade de se localizar como falantes profissionais quase nativos”.

*Matéria publicada originalmente em Agência Pública





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