‘Não contenho as lágrimas’, diz Nobel de literatura, que prepara livro sobre Belarus – 18/07/2021 – Mundo


Prêmio Nobel de Literatura em 2015, a jornalista e escritora belarussa Svetlana Aleksiévitch, 73, prepara um livro sobre os protestos contra a ditadura em seu país e a repressão violenta do regime de Aleksandr Lukachenko.

Antes que a repressão se instalasse na Belarus, o projeto da escritora —que se consagrou com a reconstrução literária de momentos históricos a partir de relatos de testemunhas— era um livro sobre amor e velhice.

“Isso terá que esperar. O mais importante agora é que nossa revolução termine em vitória o mais rapidamente possível”, afirmou ela ao jornal polonês Gazeta Wyborcza.

Aleksiévitch contou que o trabalho a tem feito chorar: “Provavelmente nenhum livro anterior me custou tanto. Não consigo controlar minhas lágrimas ao ouvir os discursos dos jovens, seus últimos discursos durante os julgamentos em que são acusados ​​das piores coisas”.

Um dos sete integrantes do conselho de transição criado pela oposição após a eleição presidencial de agosto de 2020, considerada fraudada, Aleksiévitch foi levada a depor pela ditadura.

Ela publicou um alerta público à repressão contra seus colegas e depois precisou chamar ajuda para que seu apartamento não fosse invadido por homens encapuzados da ditadura.

Em setembro do ano passado, quando viajou para Alemanha, ela era a única dos líderes do conselho de oposição que ainda não tinha sido presa ou forçada a deixar o país. Desde então, Aleksiévitch mora em Berlim.

“Não posso voltar para minha terra natal neste momento. Se eu voltasse, o que me aguardaria seria o destino de Alexei Navalni”, disse ela em entrevista ao , fazendo menção ao dissidente preso pelo governo da Rússia assim que pisou em seu país.

Aleksiévich atribui à nova geração o despertar da Belarus contra um regime autoritário instalado em 1994, quando Lukachenko venceu a primeira (e a única livre desde então) eleição pós-URSS.

“Houve protestos em 2010, mas foram rapidamente dispersos. Dez anos depois, esses jovens conhecem o mundo moderno, viajam e usam as redes sociais. Eles veem e sabem mais do que nós e querem viver em um Estado não autoritário”, disse.

Também os idosos são personagens dessa revolução, como duas mulheres mais velhas que a escritora que andaram por uma semana até a Lituânia por terem suas vidas ameaçadas na pequena cidade perto de Minsk em que fizeram protestos.

Segundo a escritora, a eleição de 2020 foi um ponto de virada, em que os belarussos perderam a paciência e se recusaram a suportar novas humilhações. A campanha eleitoral havia mostrado grande apoio a Svetlana Tikhanovskaia, candidata da frente eleitoral, mas a ditadura divulgou que Lukachenko vencera com 80% dos votos, o que deflagrou os protestos.

“As pessoas perceberam que não podiam mais ficar em silêncio. Como se de repente tivessem recuperado a dignidade, elas resistiram, saíram para as ruas conscientemente”, relata.

E então começou a repressão, “uma brutalidade difícil de descrever”. Ela diz que ficou ainda mais chocada ao descobrir que não eram tropas russas que estavam atacando os manifestantes, mas agentes belarussos.

“Fiquei impotente diante dessa violência, porque embora eu tenha lidado com essas histórias por toda a minha vida, não conseguia acreditar que meus conterrâneos estavam fazendo isso.”

A tortura nas prisões, “como faziam antes nos campos de trabalho forçado”, é outra parte sofrida dos depoimentos registrados pela escritora. Mas ela mantém a esperança de que a resistência pacífica tenha sucesso e elogia a liderança feminina desse movimento.

Além de Tikhanovskaia, que virou candidata quando seu marido, o popular blogueiro Serguei Tikhanovski foi preso, duas mulheres formaram a frente de oposição e outras duas faziam parte do conselho de transição.

Foram também correntes espontâneas de mulheres que interromperam a violência policial dos primeiros dias de protestos. “Acho que graças a isso foi possível evitar uma tragédia ainda maior. Se os homens substituíssem as mulheres, talvez ganhassem, mas a que custo?”, pergunta.

Aleksiévitch espera ainda que os jornalistas de seu país resistam aos avanços da ditadura, que já bloqueou vários veículos informativos e prendeu e condenou repórteres e editores: “Tenham coragem e apeguem-se a seus ideais. O mundo está mudando, e esses valores são importantes”.

Embora seu nome já tenha sido lançado para presidente belarussa várias vezes, a escritora diz que o líder ideal seria o executivo Viktor Babariko, detido desde 2020 e condenado neste mês a 14 anos de prisão.

“Não sou boa para a política. Quero ouvir as pessoas, falar com elas, documentá-las. Essa é a minha vocação.” É o que ela está fazendo e, embora esperasse dificuldades para encontrar depoimentos, por causa do risco que isso implica, diz que histórias e testemunhas continuam chegando até ela.

Segundo Svetlana, a interceptação de um voo comercial para prender o blogueiro Roman Protassevich, em maio, mostrou que o que acontece na Belarus diz respeito a todos os países.

“O mundo precisa continuar falando sobre isso e ajudar a proteger o maior número possível de belarussos, que não querem deixar o país. Querem viver, trabalhar e ensinar seus filhos lá”, afirmou ela ao jornal polonês.



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