Livro de best-seller francês tem série de acasos pelo mundo ao som de The Cure – 18/07/2021 – Ilustrada


Uma experiente comissária de bordo da Air France está encucada com sua escala de trabalho. Montreal, Los Angeles e Jacarta. Soa normal, mas a única vez em que viajou às três cidades, e nessa mesma ordem, foi em 1999, 20 anos antes, quando aconteceu algo que ainda não sabemos, mas que a atormenta.

A partir daí, Nathy, a protagonista de “Eu Devia Estar Sonhando”, passa a ver uma série de coincidências, como estarem, no primeiro voo, a mesma equipe de bordo de 1999 e, entre os passageiros, o músico Robert Smith, vocalista da banda de rock The Cure, como há 20 anos.

O livro de 2019 do francês Michel Bussi é seu terceiro a chegar ao Brasil, depois de “O Voo da Libélula” e “Ninfeias Negras”. Conta, entre idas e vindas de 1999 a 2019 a cada capítulo, uma história de amor, entre Nathy, que já é casada, e Ylian, um músico fracassado. Mas o romance tem tons de thriller, a marca de Bussi, autor de suspenses policiais.

“Quando uma história de amor acaba, vemos coincidências por todos os lados, que nos fazem lembrar daquela pessoa, coisas que não víamos antes, e nos dizemos ‘é por acaso ou estou obcecado?’”, diz Bussi em conversa por vídeo de sua casa na Normandia, no norte da França.

“Mas quando o acaso se torna extraordinário, nos inclinamos a acreditar que seja algo anormal e aí pode, então, ser o tema de um romance policial.” Para Nathy, as coincidências vão se somando a ponto de pensar estar sendo pega em uma armação.

Acompanhamos as semelhanças mais estranhas entre o presente e o passado ao longo de passeios por diversas cidades, como uma bolsa perdida, uma mesa bamba num bar, uma dona de loja um tanto feiticeira. Além daquelas paradas de Nathy, há ainda San Diego e Barcelona.

“Nas grandes histórias de amor é preciso que haja um cenário de sonho”, diz Bussi. Para que os personagens não precisassem ser milionários nem famosos, com quem o leitor dificilmente se identificaria, o escritor optou então pela comissária e pelo músico que trabalha com bandas em turnês.

Tudo isso regado a canções do Cure, como “Charlotte Sometimes”, em que a letra diz: “Às vezes estou sonhando/ Tantos nomes diferentes/ Às vezes estou sonhando/ Os sons permanecem os mesmos”. Bussi conta que queria que fosse uma banda popular nos anos 1980, mas que ainda fizesse shows, e que as músicas da banda inglesa envelheceram bem, sem ficar démodées.

“Há grandes hits do Cure, mas a música deles ainda é um tanto quanto estranha, e dá uma melancolia. Além disso, Robert Smith é um ícone, facilmente reconhecível, pelo seu cabelo, pelas suas roupas, e isso fala visualmente a muitas pessoas”, diz Bussi.

Com 15 romances publicados, Bussi ocupa o pódio dos escritores mais vendidos na França desde 2016, entre segundo e terceiro lugares —em 2020 foi o terceiro. Seu primeiro livro, “Code Lupin”, de 2006, acompanha um professor que encontra um tesouro que acredita estar ligado a um código secreto presente nas histórias de Arsène Lupin, personagem do começo do século 20 do escritor Maurice Leblanc que hoje faz sucesso num seriado da Netflix.

Bussi diz que adorou “Lupin”, com Omar Sy como o ladrão de casaca. “Ele é o arquétipo do ladrão elegante que rouba dos desonestos. É um personagem da literatura francesa, mas a série conseguiu fazê-lo universal”, diz.

O livro mais recente de Bussi, “Rien ne T’Efface” (nada te apaga), do começo do ano, é sobre uma médica que perde o filho de dez anos em uma praia e, dez anos depois, encontra um menino muito parecido com o filho pelo qual fica obcecada. “Em quase todos os meus livros há melancolia, dor, e protagonistas que perderam algo”, diz o autor. “A dimensão do jogo de enigma está sempre ligada a isso. São livros de entretenimento, pelo lado policial, mas há um lado melancólico e nostálgico.”

Mas além de autor best-seller, Bussi é geógrafo especialista em processos eleitorais. Com as eleições presidenciais francesas se aproximando, em abril de 2022, a conversa envereda pelo tema. Para ele, com o fim da pandemia, as questões sociais habituais, como aposentadoria e desemprego, devem voltar ao centro do debate e, se houver conflitos importantes, Marine Le Pen e seu partido de extrema-direita podem se beneficiar. Caso a economia se recupere bem, o atual governo liberal de Emmanuel Macron pode surfar o sucesso da saída da crise.

“A esquerda está muito dividida, e se colocou fora de jogo. Ela não consegue ter um programa comum e se exclui do debate. Então estamos entre um liberalismo europeu, encarnado por Macron, e um posicionamento nacionalista, encarnado por Le Pen”, diz.

Segundo Bussi, as críticas à gestão da pandemia não devem influenciar nas eleições, já que foram técnicas, e não políticas, e a França não destoou das medidas tomadas por países vizinhos. “O descontentamento social não vai se nutrir da pandemia.”



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