Bolsonaro sem cura: nova droga milagreira. Sem sangue? Água de coco na veia – 19/07/2021


Jair Bolsonaro não tem cura. Refiro-me ao que tem na cabeça. Quanto ao que lhe vai no intestino, aí o sabem Deus e o médico Antônio Macedo. Uma coisa é certa: o país foi alvo de uma operação de opinião pública. Na quarta, a foto do presidente colando a imagem do Cristo Morto, de Mantegna, como apontei aqui. Na quinta, serelepe, andando pelos corredores, visitando outros pacientes, pondo em questão o protocolo do Vila Nova Star. Até agora não li uma explicação razoável para a patuscada.

Por que a mudança repentina? Alguém teve a ideia de requentar a imagem do mártir. Colou em 2018. Ocorre que, em 2022, já havia quase 540 mil mortos por Covid-19 em razão da política desastrada do governo. As redes sociais preferiram a pilhéria à piedade. Os memes negativos pululavam nas telas aos milhões. Então foi preciso fazer um recuo rápido. Não parecia conveniente juntar à imagem do presidente impopular a do homem frágil. Aí se deu o milagre: ele levantou e andou.

Claro que conta com uma ajudazinha dos boletins, né? Num dia, não se sabe quando vai ter alta, informa-se. No outro, ele já está concedendo entrevista coletiva e deixando claro: não tem cura mesmo, não adianta. Como já escrevi aqui, o objetivo principal de sua fala neste domingo foi proteger o general Eduardo Pazuello e o coronel Élcio Franco, que era seu segundo e hoje é assessor da Casa Civil. Então o presidente sacou a tese de que “corrupção é só pelado, dentro da piscina”. A tolice, como escrevo em outro post, não se sustenta.

APRENDEU, LUIZ FUX?
Como vocês sabem, na segunda-feira passada, Bolsonaro encontrou-se com Luiz Fux a convite do presidente do Supremo. Na sequência, ambos concederam entrevistas. E o ministro disse, então, que haveria uma reunião entre os respectivos chefes dos três Poderes para fixarem “balizas sólidas para a democracia brasileira, tendo em vista a estabilidade do nosso regime político.”

Apontei aqui a bobagem. As balizas já estão fixadas na Constituição. Bolsonaro vinha de fazer graves ameaças ao processo eleitoral e havia desferido ataques inaceitáveis a ministros do Supremo. E Fux achou que sua função era chama-lo para um papinho junto com Rodrigo Pacheco e Arthur Lira, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara.

O encontro estava marcado parta quarta. Mas aí Bolsonaro teve de brincar de “Cristo Morto”; houve a transferência para São Paulo; assistiu-se ao circo de velharias, que remetia a 2018, do Vila Nova Star etc. A esta altura, creio que Fux percebeu o ridículo da coisa.

RENOVANDO OS ATAQUES
Na entrevista deste domingo, o moribundo de quarta-feira voltou a atacar as urnas eletrônicas e, mais uma vez, personalizou a coisa no ministro Roberto Barroso, presidente do TSE:
“A tecnologia que está aí é dos anos 1990. Por que essa vontade doida do ministro Barroso de buscar uma maneira de manter o sistema como está?”

A fala nem sentido técnico faz. E insistiu que tem “um cidadão” que vai provar a suposta fraude. Vai nada! A tese do tal “cidadão” é conhecida e é só uma embromação revestida de suposta teoria matemática. Já foi suficientemente desmoralizada. Mas que compromisso tem com a ciência e com os fatos quem reiterou ontem que, se tomar a vacina, será o último a fazê-lo?

Escrevo num dos posts abaixo e insisto: agora a tarefa é mesmo perseguir o dinheiro para saber os nomes dos maiores beneficiários com essa patuscada toda de tratamento precoce — além, claro!, de tentar aclarar os porões das negociações do Ministério da Saúde com bucaneiros das vacinas.

MAIS UM MILAGRE
Macedo, consta, não operou Bolsonaro — embora já se tenha falado outras vezes na necessidade de uma outra cirurgia — porque isso poderia provocar aderências novas no intestino e, entende-se, predispor a novas obstruções.

Na linguagem do presidente, ele foi salvo por um milagre em 2018 e, agora, por outro. Disse não ter sido necessária a cirurgia talvez “por um milagre de Deus”. Há diferença considerável entre “não ser prudente” e “não ser necessário”. Há intervenções que não se fazem, embora necessárias, porque o resultado não compensa o risco. Escolhe-se o ruim quando a alternativa é pior. Falo em tese. De toda sorte, por óbvio, Deus não tem nada com isso. Já o Macedo tem.

A DROGA DA HORA E A ÁGUA DE COCO
Bolsonaro, agora, virou propagandista de outra droga, a proxalutamida, um bloqueador de hormônios masculinos (antiandrógeno). Há apenas especulações a respeito. Nem a Anvisa nem qualquer outra agência no mundo endossa seu uso contra a Covid. Mas ele já está alardeando a coisa. Ainda chegará ao chá de erva-doce e à gemada com leite quente.

E reincidiu numa de suas besteiras prediletas. Afirmou:
“Nós temos que tentar, como já sempre disse. Na guerra do Pacífico, não tinha sangue para os soldados, e resolveram botar água de coco e deu certo”.

Não. Não deu. Isso não aconteceu. Fake news. Água de coco substituindo sangue? Olhem o grau de estultice a que o país está exposto. Há um relato do uso da água de coco em lugar de soro por dois dias num paciente em Malaita, nas Ilhas Salomão. Isso o teria mantido vivo até a chegada do produto adequado.

Dentro do coco verde, se não houver fissuras na casca, a substância é estéril. Imaginem, num campo de batalha, as condições para injetar uma agulha no dito-cujo e extrair a água sem contaminá-la.

Se acontecesse, poderia até prolongar a vida de um moribundo desidratado desde que o soro chegasse logo. Em razão da falta de sódio e do excesso de potássio, alguém hidratado só com água de coco, ainda que em condições ideais (e elas não são, por definição), adivinhem…, viria a óbito. O relato de Malaita, se o fato aconteceu, reitere-se, refere-se a um ambiente hospitalar. A propósito: de que “Guerra do Pacífico” fala Bolsonaro?

CERTA RAZÃO…
Mas há, sim, certa razão na bobagem dita pelo presidente sobre o coco — para hidratação, não pra substituir o sangue — quando confrontada com o uso de hidroxicloroquina contra Covid-19.

Há mais parentesco entre a água de coco e o soro do que entre a hidroxicloroquina e um antiviral. A razão é simples: a água de coco hidrata quando ingerida. A hidroxicloroquina não é um antiviral.

Volta e meia os bancos de sangue acusam baixa nos estoques, e é preciso fazer campanha em favor da doação.

Bolsonaro tem a resposta: o coqueiro que dá coco.





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